Mestre das Periferias leva grande público à Maré em noite de premiação

Por Ivana Dorali (dorali@imja.org.br) / Comunicação Instituto Maria e João Aleixo

Rio de janeiro — Ailton Krenak, Antonio Nêgo Bispo, Conceição Evaristo e Marielle Franco (in memoriam) foram os protagonistas da noite na primeira edição do prêmio Mestre das Periferias, promovido pelo Instituto Maria e João Aleixo (IMJA), na última quarta-feira, dia 08. Os homenageados receberam o troféu e o título de Mestre das Periferias, além de uma bolsa de R$ 30 mil para incentivo à pesquisa e produção de conhecimento e conteúdo, a serem realizados em parceria com o IMJA.

O Galpão Bela Maré, palco da cerimônia de premiação, esteve lotado por um público diverso e majoritariamente periférico, território em que se firma o prêmio. O espaço fica situado na Maré, um dos maiores conjuntos de favelas do Rio de Janeiro, que possui cerca de 140 mil habitantes. Um local simbólico, reafirmando a periferia como espaço de produção de conhecimento e cultura, para além dos muros da academia, considerados espaços formais de educação.

O primeiro homenageado da noite, o líder quilombola Antônio Nego Bispo, como agradecimento, recitou um poema que criou para a premiação: “Nós somos o começo, o meio e o começo e por isso existiremos sempre. Porque para nós não existe o fim. Sorrindo nas tristezas para comemorar a vida das alegrias, nós somos a gira da gira na gira. Nós somos a Periferia”, discursou Bispo.

“Queremos juntos convocar outros pensamentos, outras visões sobre esses múltiplos lugares em que os nossos povos vivem. Quilombos, favelas, aldeias. Nós não temos fim. Nós só temos começo. Eu saúdo o começo do Mestre das Periferias”, disse o líder indígena Ailton Krenak após receber o título de Mestre das Periferias das mãos de Macaé Evaristo, ex-Secretária de Estado de Educação de Minas Gerais.

Conceição Evaristo, escritora que disputa a cadeira de nº 7 na Academia Brasileira de Letras, destacou que receber o prêmio é reafirmar o seu desejo de não perder o rumo. “Fico feliz em ser premiada Mestra das Periferias porque posso afirmar que sábios somos nós. Enquanto a academia só conhece um lado da cultura, nós conhecemos os dois. Donos do saber somos nós que somos capazes de aproveitar essas confluências”, afirmou Evaristo.

Marielle Franco, única homenagem em memória da noite, foi representada pela mãe, D. Marinete da Silva e a filha Luyara Francisco, recebendo o prêmio da professora Anielle Francisco, irmã de Marielle, que ressaltou o legado deixado pela socióloga. “Marielle é Mestra das Periferias. Ela foi crescendo passo a passo e como sangue de Marielle nós não podemos parar. Arrancaram a Marielle da gente, mas não a calarão nunca. Eu sei que ela está aqui, principalmente abrindo caminho para outras mulheres negras”, disse a professora.

Jailson de Souza e Silva, diretor do Instituto Maria e João Aleixo destacou a importância da criação do prêmio Mestre das Periferias, considerando que a organização é um think tank e possui como objetivo institucional se tornar uma Universidade Internacional das Periferias, a fim de criar uma nova teoria social sobre as periferias contemporâneas. “Precisamos produzir novos conceitos e metodologias centrados na potência das periferias, considerando que os discursos atuais sobre os territórios periféricos ainda estão pautados no paradigma da carência, da ausência e da precariedade. Entender que a periferia também é central na cidade, ainda é algo pouco difundido no Brasil e no mundo”, aponta o diretor.

Ao final da cerimônia, mestres e convidados festejaram a potência das periferias ao som de Black Music, com o setlist da Dj Tammy. A Dj carioca realiza um trabalho importante de resgate da música negra e periférica nas noites do Rio de Janeiro.

Conceição Evaristo na ABL

Em seu discurso, durante a cerimônia do Mestre das Periferias, Jailson de Souza e Silva, diretor do Instituto Maria e João Aleixo, revelou que o prêmio foi pensado pela primeira vez em uma reunião na casa da Conceição Evaristo com o objetivo de reconhecer trajetória e a potência dos sujeitos de origem popular e periférica nas áreas de arte, cultura, ativismo e produção do conhecimento, como a própria escritora. Reafirmando que esses são, também, motivos para a entrada de Evaristo na ABL.

“A gente quer, é muito merecido, é necessário ter Conceição Evaristo como a primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras. Isso é central pra gente. Mas não vamos apenas esperar o reconhecimento deles, aqui a gente é a nossa própria academia e é por isso que criamos o Mestre das Periferias”, disse Silva sob forte aplauso da plateia.

A campanha “Conceição Evaristo na ABL” é uma mobilização da sociedade civil que tem o apoio de organizações como o Instituto Maria e João Aleixo, Observatório de Favelas, Redes da Maré e Blogueiras Negras. A iniciativa conta com duas petições online que somam mais de 40 mil assinaturas, além da visibilidade nas redes sociais através de twitaços, de manifestações de apoio e do site da campanha: www.conceicaoevaristonaabl.com.br.

Leave a Reply